Será que eu tenho TDAH? O que está por trás da busca pelo diagnóstico
Você já se pegou navegando pelo Instagram às 23h, lendo sobre TDAH em adultos e pensando: "isso sou eu"? Não está sozinha.
AUTOCONHECIMENTOTERAPIA
Você já se pegou navegando pelo Instagram às 23h, lendo sobre TDAH em adultos e pensando: "isso sou eu"?
Não está sozinha. Em 2023, o SUS registrou quase 1 milhão de atendimentos ambulatoriais relacionados ao TDAH, e o número segue crescendo. Nas redes sociais, o tema explodiu: vídeos com "sinais de que você pode ter TDAH" acumulam milhões de visualizações. Celebridades assumem diagnósticos tardios. Grupos de apoio surgem em todo canto.
Algo claramente mudou, mas o quê, exatamente?
Primeiro: diagnósticos existem por uma razão
Antes de qualquer reflexão, é preciso dizer com clareza: TDAH é real. Autismo é real. Diagnósticos corretos mudam vidas.
Por décadas, especialmente em mulheres e meninas, esses transtornos foram invisibilizados. Muita gente chegou à vida adulta sem entender por que se sentia diferente, desregulada, incapaz de funcionar como os outros pareciam funcionar com facilidade. Para essas pessoas, o diagnóstico foi, e continua sendo, um alívio legítimo. Um ponto de partida para tratamento, acolhimento e autocompreensão.
Isso não está em questão aqui.
Mas existe uma pergunta que vale fazer: por que tantas pessoas hoje, especialmente adultas, estão buscando esse diagnóstico?
Os dados mostram um cenário interessante: segundo a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), o TDAH afeta cerca de 5,2% dos adultos entre 18 e 44 anos e 6% acima dos 45 anos. São números reais, que justificam atenção clínica.
Ao mesmo tempo, pesquisadores e psiquiatras alertam: o que está crescendo não é necessariamente a prevalência do transtorno, mas a quantidade de avaliações superficiais, feitas sem o rigor diagnóstico necessário. E, por trás de muitos casos, há algo que merece ser nomeado com cuidado:
Uma vida que ficou impossível de sustentar
Pense em qualquer mulher que você conheça com 30, 35, 40 anos. Ela acorda cedo, entrega além do esperado no trabalho, gerencia a casa, os filhos, os relacionamentos. A mente não para. Ela esquece coisas, perde o fio da meada no meio de uma reunião, começa dez tarefas e não termina nenhuma. Dorme mal. Sente que nunca é suficiente.
Ela pesquisa os sintomas. Tudo confere.
Mas o que está acontecendo é TDAH, ou é uma mente e um corpo que chegaram ao limite?
A psicanálise tem uma perspectiva importante aqui: o sintoma raramente é o problema. Ele é a mensagem. Uma comunicação de que algo precisa ser ouvido, e não apenas medicado ou rotulado.
Quando a atenção se fragmenta, quando a memória falha, quando o corpo não para, pode ser neurologia. Mas pode também ser o preço de uma vida em que não há espaço para existir fora da produção. Em que descansar virou luxo. Em que a identidade foi se apagando no meio das responsabilidades.
Sobre a busca pelo nome
Existe algo muito humano em querer nomear o que dói. Um diagnóstico oferece estrutura: "não é fraqueza, é um transtorno." Isso alivia a culpa, cria comunidade, dá um vocabulário para falar sobre si. E tem valor nisso, sim.
Mas há também um risco silencioso: quando o diagnóstico vira destino. Quando ele fecha a pergunta em vez de abri-la. Quando, em vez de investigar o que está pesando e por que esse peso chegou, a pessoa encontra uma resposta pronta, e para de se perguntar.
A questão não é se o rótulo é certo ou errado. É: o que você vai fazer com ele?
O que a terapia pode oferecer (que o laudo não oferece)
Um diagnóstico diz o que você tem. A terapia pergunta quem você é, e o que, na sua história, no seu contexto, nas suas relações, está produzindo esse sofrimento agora.
Para quem vive no limite entre burnout, ansiedade e a sensação de estar se perdendo de si mesma, esse espaço pode ser mais transformador do que qualquer rótulo.
Não porque o diagnóstico seja desnecessário. Mas porque entender o sintoma como mensagem, e não como identidade, abre um caminho diferente.
Uma pergunta para você
Se você chegou até aqui, talvez esteja se reconhecendo em alguma coisa.
Não precisa ter uma resposta agora. Mas se a pergunta "será que eu tenho TDAH?" veio acompanhada de exaustão, de uma sensação de não se reconhecer, de uma vida que parece grande demais para dar conta, vale se perguntar também: quando foi a última vez que você teve espaço para simplesmente existir?
É sobre isso que a terapia costuma tratar.
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Isabella Bedin é terapeuta psicanalítica e hipnoterapeuta. Atende online e presencialmente em Pinheiros adultos que buscam se reencontrar no meio da correria.
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